sexta-feira, 3 de abril de 2009







Já deviam saber que eu a amava: um amor à primeira vista, a última vista, a cada uma e a todas as vistas.

(Vladimir Nabokov, em Lolita)




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quarta-feira, 1 de abril de 2009

A chuva


"Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é."

Fernando Pessoa


Eu gosto desse poema pelo que ele tem nas entrelinhas, mas hoje vou me prender ao sentido denotativo mesmo e usá-lo como um tipo de epígrafe para abrir minha reflexão de hoje.

A tardinha cheguei a conclusão de que não há nada melhor para acompanhar um bom filme, um chá quentinho, um cafuné do namorado ou uma panela de brigadeiro do que uma chuvinha.


Eu adoro os dias de chuva*, mas admito que já amaldiçoei muito os dias chuvosos quando tinha que sair para trabalhar ou uma tempestade inesperada destruía minha escova , hehe! Era um transtorno!
Mas com a maturidade e o passar do tempo a vida entra em sintonia, você começa a respeitar o ritmo da natural do mundo e tudo se transforma. Bom, quase tudo, pois admito que apesar de não reclamar mais das chuvas repentinas, fico bem mais preguiçosa e se tiver que fazer algo na rua e a chuva estiver caindo lá fora prefiro deixar pra outro dia e curtir minha cama e a tevê.

Hoje foi um desses dias.
Com o tempo ruim resolvi deitar e para me distrair li pela milésima vez o livro Vidas Secas, do Graciliano Ramos. (É, este mesmo, que a maioria dos meus alunos adolescentes odeia quando escuta falar, hehe! Ainda bem que daqui a pouco o tempo passa, né?!) e me deparei com uma passagem belíssima, em que Fabiano anseia pela chuva, pois ela daria traria um novo sentido para a sua vida. Fiquei pensando que essa é a realidade de várias pessoas em nosso país e a gente ainda reclama quando chove, né?! Como nós, seres humanos, somos egoístas!


"Olhou o céu de novo. Os cirros acumulavam-se, a lua surgiu, grande e branca. Certamente ia chover.
Seu Tomas fugira tambem, com a seca, a bolandeira estava parada. E ele, Fabiano, era como a bolandeira. Nao sabia porque, mas era. Uma, duas, tres, havia mais de cinco estrelas no céu. A lua estava cercada de um halo cor de leite. Ia chover. Bem. A catinga ressuscitaria, a semente do gado voltaria ao curral, ele, Fabiano, seria o vaqueiro daquela fazenda morta. Chocalhos de badalos de ossos animariam a solidao. Os meninos, gordos, vermelhos, brincariam no chiqueiro das cabras, Sinhá Vitória vestiria saias de ramagens vistosas. As vacas povoariam o curral. E a caatinga ficaria toda verde.
Lembrou-se dos filhos, da mulher e da cachorra, que estavam la em cima, debaixo de um juazeiro, com sede. Lembrou-se do prea morto. Encheu a cuia, ergueu-se, afastou-se, lento, para nao derramar a agua salobra. Subiu a ladeira. A aragem morna acudia os xiquexiques e os mandacarus. Uma palpitacao nova.
Sentiu um arrepio na catinga, uma ressurreicao de garranchos e folhas secas.
(...)
Eram todos felizes. Sinhá Vitória vestiria uma saia larga de ramagens. A cara murcha de sinhá Vitória remoçaria, as nádegas bambas de sinhá Vitória engrossariam, a roupa encarnada de sinhá Vitória provocaria a inveja das outras caboclas.
A lua crescia, a sombra leitosa crescia, as estrelas foram esmorecendo naquela brancura que enchia a noite. Uma, duas, três, agora havia poucas estrelas no céu. Ali perto a nuvem escurecia o morro.
A fazenda renasceria - e ele, Fabiano, seria o vaqueiro, para bem dizer seria dono daquele mundo.
(...)
Uma ressurreição. As cores da saúde voltariam a cara triste de sinha Vitória. Os meninos se espojariam na terra fofa do chiqueiro das cabras. Chocalhos tilintariam pelos arredores.
A caatinga ficaria verde."
(Capítulo 1, Mudança)

* Chuvinha né, geeeente?! Não aqueles temporais que provocam catástrofes!


segunda-feira, 30 de março de 2009

Relato de uma Professora de Matemática

Semana passada comprei um produto que custou R$ 1,58. Dei à balconista R$ 2,00 e peguei na minha bolsa 8 centavos, para evitar receber ainda mais moedas. A balconista pegou o dinheiro e ficou olhando para a máquina registradora, aparentemente sem saber o que fazer. Tentei explicar que ela tinha que me dar 50 centavos de troco, mas ela não se convenceu e chamou o gerente para ajudá-la. Ficou com lágrimas nos olhos enquanto o gerente tentava explicar e ela aparentemente continuava sem entender.

Por que estou contando isso? Porque me dei conta da evolução do ensino de matemática desde 1950, que foi assim:

1. Ensino de matemática em 1950:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00.
O custo de produção desse carro de lenha é igual a 4/5 do preço de venda .
Qual é o lucro?

2. Ensino de matemática em 1970:Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00.
O custo de produção desse carro de lenha é igual a 4/5 do preço de
venda ou R$ 80,00.
Qual é o lucro?

3. Ensino de matemática em 1980:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00.
O custo de produção desse carro de lenha é R$ 80,00.
Qual é o lucro?

4. Ensino de matemática em 1990:Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00.
O custo de produção desse carro de lenha é R$ 80,00.
Escolha a resposta certa, que indica o lucro:
( )R$ 20,00 ( )R$40,00 ( )R$60,00 ( )R$80,00 ( )R$100,00

5.. Ensino de matemática em 2000:Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$ 100,00.
O custo de produção desse carro de lenha é R$ 80,00.
O lucro é de R$ 20,00.
Está certo?
( )SIM ( ) NÃO

6. Ensino de matemática em 2009:
Um cortador de lenha vende um carro de lenha por R$100,00.
O custo de produção é R$ 80,00.
Se você souber ler coloque um X no R$ 20,00.
( )R$ 20,00 ( )R$40,00 ( )R$60,00 ( )R$80,00 ( )R$100,00

quinta-feira, 26 de março de 2009

QUASE

Ainda pior que a convicção do não, a incerteza do talvez, é a desilusão de um "quase". É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata, trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.

Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.

Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor, não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até para ser feliz.

A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são.

Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza . O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.

Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência, porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.

Pros os erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.

Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando.

Porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

Érico Veríssimo

terça-feira, 24 de março de 2009

Educação e politicagem

Governadores que entraram na justiça contra o piso nacional dos professores:

Rio Grande do Sul - Yeda Crusius (PSDB);
Ceará - Cid Gomes (PSB);
Santa Catarina - Luís Henrique (PMDB);
Mato Grosso do Sul - André Puccinelli (PMDB);
Paraná - Roberto Requião (PMDB).


(Nenhum professor deveria votar neles. Aliás, ninguém deveria votar neles, pois quem não valoriza a educação não vai valorizar nada, pois ela é a base de tudo, né?)




** Remuneração do Magistério Público Estadual – Jornada de 20 horas - Salário inicial
Levantamento - Conselho Nacional das Secretarias de Educação, em 2007
- Na ordem de valores:


Acre R$ 1.498,00
Maranhão R$ 1.201,11
Tocantins R$ 1.010,00
Amazonas R$ 950,95
São Paulo R$ 863,84
Distrito Federal R$ 827.42
Sergipe R$ 818,40
Mato Grosso do Sul R$ 814,60
Mato Grosso R$ 723,31
Paraná R$ 665,23
Bahia R$ 648,79
Roraima R$ 644,89
Santa Catarina R$ 579,28
Rio Grande do Norte R$ 578,66
Alagoas R$ 550,40
Goiás R$ 542,34
Rio de Janeiro R$ 540,65
Rondônia R$ 518,62
Rio Grande do Sul R$ 504,20
Paraíba R$ 450,84
Pará R$ 370,79
Piauí R$ 369,81
Pernambuco R$ 369,60
Minas Gerais R$ 328,88

Link aqui.


(Eu não podia deixar de chamar a atenção sobre este problema aqui, né?)

segunda-feira, 23 de março de 2009

Sobre o coração


O coração tem mais quartos que uma pensão de putas.


Gabriel Garcia Marques

quarta-feira, 18 de março de 2009

Resistência



"Silenciosa força interior, isso é o que têm as mulheres. Uma força discreta que, sem alarde, alimenta seus gestos de coragem e, tantas vezes, permite que conservem a cabeça erguida nas circunstâncias mais duras."
(Prefácio de Marina Colassanti)


Terminei de ler o livro Resistência - A história de uma mulher que desafiou Hitler (Editora Nova Fronteira, do grupo Ediouro) e recomendo a leitura para todos, viu?! A obra conta a vida e a trajetória de Agnes Humbert, uma historiadora francesa que viveu na época em que seu país foi dominado pela Alemanha Hitlerista.


Revoltada com a situação e ávida pela libertação de sua nação, ela se junta a outros intelectuais de Paris para fundar um movimento de resistência e contra-propaganda, insuflada pelas palavras e ações do General De Gaulle, voz praticamente isolada que mantém as esperanças do povo francês.

Agnes, assim como a grande maioria dos integrantes do movimento de resistência, é presa e deportada para a Alemanha, onde é condenada a 5 anos de trabalhos forçados, onde passa por um verdadeiro martírio: fome, sede, calor, frio, humilhação, degradação... Nada, porém, é capaz de fazê-la perder a esperança, a moral e a dignidade.


A historiadora mostra neste livro, originalmente escrito e publicado em 1946 sob o titulo "Notre Guerre", do que a mulher é capaz e como ser um exemplo de heroísmo e dignidade.

De valor historico inestimável, Resistência é um marco e leitura indispensável a quem quiser entender um pouco mais do que é realmente uma guerra, e de como ela pode ser cruel.

Para ver o site do livro clique aqui.