A coragem de se expor incomoda.
O silêncio incomoda muito mais.
A pose de modelo incomoda.
A platéia incomoda muito mais.
Fotografar-se todo dia útil incomoda.
Não resistir a dar uma olhadinha incomoda muito mais.
Nascer rica incomoda.
Nascer classe média e querer ter prazeres dos ricos incomoda muito mais.
Ser mineiro incomoda.
Ser mineiro e chamar atenção de gente de outros lugares incomoda muito mais.
Comprar roupas incomoda.
Comprar com o dinheiro de uma carreira bem sucedida incomoda muito mais.
Falar da dor incomoda.
Sentir a dor na própria pele incomoda muito mais.
Expor a tristeza incomoda.
Sorrir incomoda muito mais.
A falta de maquiagem incomoda.
Sentir-se bem mesmo assim incomoda muito mais.
Imperfeições incomodam.
Tatuagens incomodam muito mais.
A repetição incomoda.
O diferente incomoda muito mais.
Um gosto diferente do seu incomoda.
Um gosto visto como bom gosto incomoda muito mais.
Ser mulher incomoda.
Ser mulher e romper com os velhos comportamentos incomoda muito mais.
A crítica incomoda.
O elogio incomoda muito mais.
Valorizar a moda incomoda.
Ser valorizada por isso incomoda muito mais.
Comprar compulsivamente incomoda.
Conseguir transformar a compulsão em algo positivo incomoda muito mais.
O caro incomoda.
O que sai de graça incomoda muito mais.
Gastar dinheiro incomoda.
Ganhar dinheiro incomoda muito mais.
A inveja incomoda.
É incômodo principalmente para quem sente.
Ser humano incomoda mesmo.
Não se incomode, anônimo.
Fale, que alivia.
Eu não me incomodo.
Cristiana Guerra.
Extraído de http://hojevouassim.blogspot.com/ (O link está na minha lista de blogs favoritos)
Adoro ler o blog da Cris e este texto me deixou fascinada! Quem dá a cara pra bater na Net acaba sendo alvo de piadinhas e comentários maldosos. Principalmente anônimos...
Mas fazer o quê? Apenas ignorar, né?!
'Enquanto eles capitalizam a realidade, eu socializo meus sonhos' [Sérgio Vaz]
sexta-feira, 30 de maio de 2008
terça-feira, 29 de abril de 2008
"Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam ódio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos. Um filme mais ou menos, um livro mais ou menos. Tudo perda de tempo. Viver tem que ser perturbador, é preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu orgulho, seu asco, sua adoração ou seu desprezo. O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia."
Martha Medeiros
Ninguém merece uma vidinha mais ou menos, mas já me meti em confusão por causa disso...
Prefiro não comentar, aff!
Martha Medeiros
Ninguém merece uma vidinha mais ou menos, mas já me meti em confusão por causa disso...
Prefiro não comentar, aff!
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Queria apenas ter rodas...
" Quem me dera que a minha vida fosse um carro de bois
que vem chiar manhãzinha cedo, pela estrada,
e que para onde veio volta depois
quase à noitinha, pela mesma estrada.
Eu não tinha que ter esperanças - tinha só que ter rodas..."
(Alberto Caieiro)
Deus, aumenta minhas esperanças. Há coisas que fogem ao meu controle. Queria apenas ter rodas e não arrancar esperanças do meu peito ...
Mas sei que o que tanto me aflige hoje servirá apenas para mostrar o quão forte eu fui nos meus momentos de angústia.
que vem chiar manhãzinha cedo, pela estrada,
e que para onde veio volta depois
quase à noitinha, pela mesma estrada.
Eu não tinha que ter esperanças - tinha só que ter rodas..."
(Alberto Caieiro)
Deus, aumenta minhas esperanças. Há coisas que fogem ao meu controle. Queria apenas ter rodas e não arrancar esperanças do meu peito ...
Mas sei que o que tanto me aflige hoje servirá apenas para mostrar o quão forte eu fui nos meus momentos de angústia.
quinta-feira, 10 de abril de 2008
TPM (L)
Aaaaaaaaaaaaah!
Estou totalmente descontrolada!
Irritadiça, com o pavio curto e já explodi hoje!
Bem, eu no meu "normal" já não sou muito política não, sei que sou chata e rabujenta às vezes, não acho graça em ficar rindo pra todo mundo, não gosto de fazer média pra ninguém... Sei dos meus defeitos e me orgulho deles, porque não gosto de gente perfeitinha, mas em alguns momentos eu sei me calar pra não ofender... Mas na TPM é praticamente impossível! Não evito tempestades e águas bravias. Apenas deixo passar porque mares calmos não fazem bons marinheiros. Como disse Fernando Pessoa: "navegar é preciso”, e eu concordo com ele!
No mais, vai um texto da Clarice Lispector:
"Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro...há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma em boi. Assim fiquei eu...Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também a minha força. Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse seu único meio de viver. Juro por Deus que, se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia ia ser punida e iria para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não é ser punida por essa mesma mornidão."
Estou totalmente descontrolada!
Irritadiça, com o pavio curto e já explodi hoje!
Bem, eu no meu "normal" já não sou muito política não, sei que sou chata e rabujenta às vezes, não acho graça em ficar rindo pra todo mundo, não gosto de fazer média pra ninguém... Sei dos meus defeitos e me orgulho deles, porque não gosto de gente perfeitinha, mas em alguns momentos eu sei me calar pra não ofender... Mas na TPM é praticamente impossível! Não evito tempestades e águas bravias. Apenas deixo passar porque mares calmos não fazem bons marinheiros. Como disse Fernando Pessoa: "navegar é preciso”, e eu concordo com ele!
No mais, vai um texto da Clarice Lispector:
"Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro...há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma em boi. Assim fiquei eu...Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também a minha força. Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que imagina que é ruim em você - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse seu único meio de viver. Juro por Deus que, se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia ia ser punida e iria para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não é ser punida por essa mesma mornidão."
quinta-feira, 20 de março de 2008
Uma releitura centenária de Machado
"Um século... Para uns é muito; para outros não é nada. É o caso de Machado de Assis que, embora este ano complete 100 anos de seu falecimento, é uma criatura eternizada em/por suas obras. É considerado por muitos o maior escritor brasileiro de todos os tempos e, quiçá, um dos maiores escritores do mundo.
Apesar de ter uma saúde frágil, possuía uma mente brilhante. Machado beirou a perfeição: foi cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta. Penso que o título de historiador também lhe caberia por retratar um pouco da sociedade brasileira. Sociedade de meados de 1800 até o presente ano de 2008 e ainda outros vindouros. Paixão, traição, segredos, heranças, amor, ódio, amizade, respeito, enfim, temas pertinentes em qualquer época fazem parte suas obras. Além de fazer críticas sutis em suas narrativas de extrema inteligência. Quem nunca se perguntou o que realmente houve entre Capitu e Bentinho? Este é um mistério que paira pelas mentes e inspira grandes estudos e teses. Não só no Brasil, mas também por todo o globo terrestre.
Um escritor que não se limitou a um único tipo de literatura e passou com maestria por todos os gêneros que se propôs a escrever. Assim sendo, tornou-se um ícone de suma importância para a literatura brasileira. Sua produção se iniciou ainda na adolescência e se estendeu até os seus últimos dias numa perspicácia e sutileza incríveis. Usou e abusou de seu domínio sobre as letras e sabia como ninguém usá-las. Tudo construído em orações elaboradas e vocabulário erudito.
Sempre foi um homem a frente de seu tempo. Nota-se pela publicação da obra Memórias Póstumas de Brás Cubas de um estilo inovador e único na época. Um marco no Realismo brasileiro, um livro extremamente ousado e conceituadíssimo até os dias atuais, seja em leituras acadêmicas, domésticas ou em adaptações para cinema, teatro e televisão.
Suas obras revelam um pouco da visão do autor com relação ao mundo: a introspecção, o humor e o pessimismo com relação à essência do homem estão sempre presentes em seus textos. Além de acrescentar também um pouco de seu gosto pessoal como, por exemplo, o jogo de xadrez que aparece citado em algumas de suas obras.
Uma outra grande obra sua foi a Academia Brasileira de Letras. Foi o primeiro presidente eleito por aclamação, e também seu "Presidente Perpétuo". Possui um merecido espaço reservado no prédio da ABL destinado à sua vida e obra deixando sempre viva sua memória.
2008 é o Ano Nacional Machado de Assis mas, na verdade, esta comemoração deveria se extender. É público e notório que Machado influencia escritores até hoje por sua maneira única e inteligente de escrever. Devemos incentivar a leitura e resgatar autores como nosso homenageado que tem muito a nos ensinar no campo literário e pessoal.
São muitas as questões que envolvem Machado e me pergunto como ele se comportaria se vivesse na atualidade ou então se pudesse voltar a viver. Mas a principal questão que me ocorre no momento se refere ao campo pessoal e diz respeito ao racismo. Será que ele seria favorável às quotas para negros nas universidades sendo ele um descendente de escravos? Será que os afro-descendentes realmente precisam dessas quotas? Baseando-se no exemplo de Machado percebe-se que não; cada um, independente da cor da pele, é capaz de construir seu futuro. Para tal basta querer e ter força de vontade. Nada o impediu de se tornar um grande escritor: nem problemas de saúde, financeiros, nem perdas de entes queridos, nada. A genialidade está no interior de cada indivíduo podendo de manifestar em maior ou menor grau. E Machado sempre tentava despertar essa genialidade em seus leitores; há que se notar recorrentes questões sem respostas pré-definidas em sua obras, personagens ambíguos, a retórica do subentendido que faz as pessoas pensarem, discutirem e tentarem encontrar soluções e explicações para tais questões.
Circulam por aí muitas Iaiás, Capitus, Bentinhos, Helenas, Palhas e Sofias. Personagens de ontem, hoje e sempre. Machado sempre será lembrado por suas obras, genialidade e contribuição para a formação da cultura e identidade da literatura brasileira. Seja em simpósios, dissertações, palestras, colóquios, será sempre citado e estudado. Serve também de inspiração para nós, brasileiros, que precisamos valorizar os talentos nacionais. Machado estará sempre atualíssimo por sua reflexão filosófica, conversa com o leitor, o aprofundamento psicológico e temas abordados. Definitivamente é um autor que, a cada ano, década e século consolida ainda mais sua importância."
domingo, 10 de fevereiro de 2008
Só as chatas são solteiras
Por que tem tanta mulher avulsa hoje em dia? Não acho que seja pela reprodução acelerada dos fãs de sauna nem por culpa da carga de trabalho insana. Também não é por causa da balela (contada com ares de conquista) de que ficamos tão independentes a ponto de nos arrepiarmos com a idéia de um macho peludo pentelhando nossa paciência. A razão para ter tanta mulher solteira é simples e cruel: porque o mundo está cheio de mulher chata.
A coisa mais comum em parques, bares, restaurantes e escritórios é mulherada reclamando. Por tudo e qualquer coisa. Se o cara não deu sinal de vida depois da primeira transa: credo, que escroto. Se mandou flores depois da primeira transa: ih, que careta. Se ligou todo simpático no dia seguinte: coitado, é inseguro. Se falhou no que deveria ser a primeira transa: o desgraçado é um broxa. Se o cidadão não quer um relacionamento fixo e deixa isso claro: putz, que galinha. Se não deixa isso claro: putz, que sabonetão. Se quer namorar pra valer: putz, sabe que eu não sei se estou disposta a abrir mão da minha liberdade?
Ah, fala sério, não dá para ter paciência com essas fêmeas surtadas, não. Eles estão mais é certos de preferirem tomar uma cerveja com os amigos a encarar um cineminha com uma mocinha simpática que pode, em questão de horas, se transformar num bicho-do-mato ou num bicho-preguiça; ou sair correndo e bradando "Sou uma mulher moderrrrrrrrrrna!"; ou grudar feito ventosa e começar a escorrer melado.
Não acredito em "surto de solteirice". Isso é bobagem criada pelas mal-amadas ou trocadas: só falta homem para quem é pentelha demais, excessivamente cobradora, doentiamente independente ou que tenha a cara de um cachorro pug com gripe. Mas, acima de tudo, falta homem para dois tipos de mulheres: aquelas que estão sozinhas e continuam agindo como se não precisassem de ninguém e as que ficam praticamente sem ar se não tiverem um ser para chamar de "tchuchuco". Peraí! Namorados são bons para animar a vida, partilhar o cotidiano, levar o cachorro pra passear na rua, comprar remédio para cólica em noites de chuva. Eles não devem ser tratados como estandarte da luta contra a opressão feminina nem dão, por si só, sentido à vida de ninguém. São apenas homens com quem podemos ser mais felizes.
Se você está há muito tempo sem um bípede do sexo oposto para chamar de seu e já nem se lembra como passar um domingo a dois, pode ser que não aja nenhuma conspiração mundial ou um raro alinhamento dos astros que intervenha malignamente sobre sua vida amorosa. Talvez seja tudo muito mais simples e mais fácil de resolver: talvez você seja, ou esteja, chata.
(Ailin Aleixo)
Amoooooo!
Generalizou, mas falou a verdade!
Triste foi chamar de Fêmea surtada...
A coisa mais comum em parques, bares, restaurantes e escritórios é mulherada reclamando. Por tudo e qualquer coisa. Se o cara não deu sinal de vida depois da primeira transa: credo, que escroto. Se mandou flores depois da primeira transa: ih, que careta. Se ligou todo simpático no dia seguinte: coitado, é inseguro. Se falhou no que deveria ser a primeira transa: o desgraçado é um broxa. Se o cidadão não quer um relacionamento fixo e deixa isso claro: putz, que galinha. Se não deixa isso claro: putz, que sabonetão. Se quer namorar pra valer: putz, sabe que eu não sei se estou disposta a abrir mão da minha liberdade?
Ah, fala sério, não dá para ter paciência com essas fêmeas surtadas, não. Eles estão mais é certos de preferirem tomar uma cerveja com os amigos a encarar um cineminha com uma mocinha simpática que pode, em questão de horas, se transformar num bicho-do-mato ou num bicho-preguiça; ou sair correndo e bradando "Sou uma mulher moderrrrrrrrrrna!"; ou grudar feito ventosa e começar a escorrer melado.
Não acredito em "surto de solteirice". Isso é bobagem criada pelas mal-amadas ou trocadas: só falta homem para quem é pentelha demais, excessivamente cobradora, doentiamente independente ou que tenha a cara de um cachorro pug com gripe. Mas, acima de tudo, falta homem para dois tipos de mulheres: aquelas que estão sozinhas e continuam agindo como se não precisassem de ninguém e as que ficam praticamente sem ar se não tiverem um ser para chamar de "tchuchuco". Peraí! Namorados são bons para animar a vida, partilhar o cotidiano, levar o cachorro pra passear na rua, comprar remédio para cólica em noites de chuva. Eles não devem ser tratados como estandarte da luta contra a opressão feminina nem dão, por si só, sentido à vida de ninguém. São apenas homens com quem podemos ser mais felizes.
Se você está há muito tempo sem um bípede do sexo oposto para chamar de seu e já nem se lembra como passar um domingo a dois, pode ser que não aja nenhuma conspiração mundial ou um raro alinhamento dos astros que intervenha malignamente sobre sua vida amorosa. Talvez seja tudo muito mais simples e mais fácil de resolver: talvez você seja, ou esteja, chata.
(Ailin Aleixo)
Amoooooo!
Generalizou, mas falou a verdade!
Triste foi chamar de Fêmea surtada...
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
O homem ideal
Ele existe, sim. E, graças a Deus, está muito longe da perfeição.
O homem ideal me faz rir mas nunca usa o riso contra mim. Tem a rara habilidade de saber ouvir e só diz o que é necessário, bom ou a dura e intransponível realidade.
Compreende a diferença entre estar presente e fazer companhia.
Não é prolixo, nem tenta impressionar. Não precisa entender de vinho, charutos ou golfe; precisa ser autêntico e admitir que não entende de vinho, charutos nem de golfe (e eventualmente confessar que gosta mesmo é de pinga). Ele não exige a todo instante meu lado risonho porque sabe, como sabe de tantas outras coisas não ditas em sentenças ou discursos, que os dias negros fazem parte de mim.
Nota as sutis alterações de humor pelo tom da minha voz e, antes de prejulgar as razões, se predispõe a fazer cafuné ou, sensato, cala-se ao meu lado olhando para a TV. E não exige explicações porque possui uma calma sabedoria que me impele em sua direção: dividir minhas angústias e anseios com este homem é tão acolhedor quanto deitar na grama sob o sol de outono. O homem ideal me dá bronca quando abuso da minha independência ou como chocolate demais e depois reclamo do peso. Ele compra sorvete light e evita discussões posteriores. Compreende que preciso da sensação indescritivelmente libertadora de sumir por algumas horas e, mesmo não concordando com ela, não me interroga como um oficial do DOI-Codi quando piso em casa, levemente para não o acordar, às 2 da manhã.
O homem ideal canta. Não precisa ser afinado, mas sussurra (seja ao telefone ou ao vivo) canções que, num dia qualquer, mencionei gostar. Pode saber dançar. E, se não souber, que mantenha a dignidade e fique sentadinho me observando. Também bebe. Meio pinguço, é daqueles que ficam charmosos de matar com um copo de uísque nas mãos. É deliciosamente sacana três doses acima do normal. Enterra os bons modos e fecha abruptamente a porta do quarto, sem tempo para que eu responda à pergunta nem sequer formulada.
Adormece aconchegado a mim, mas não suporta ficar agarrado durante toda a noite.
E também curte cozinhar. Diverte-se tanto numa loja de condimentos como diante de uma prateleira de CDs. Não me expulsa da cozinha mesmo que eu esteja atrapalhando. Não me dá fusilli na boca mas o serve no meu prato, com pouco queijo e muito molho.
O homem ideal está sempre disposto a me ouvir, mesmo que seja nos minutos desagendados à força durante o dia cheio, e não usa trabalho nem cansaço como desculpa para suas eventuais faltas; as assume e, até, se desculpa. Não se esquiva de discutir os problemas que não se solucionam com notas de 100. Não considera fraqueza dizer que me ama. Pede ajuda quando sente que o peso colocado sobre seus ombros extrapolou sua força. E chora. Não faz promessas porque sabe que nem sempre é possível cumpri-las. Vive regido por sua consciência e, impulsivo, assassina a etiqueta e comete atos passionais. Então faz besteiras, erra, engana-se. E nem por isso deixa de ser maravilhoso - apenas segue sendo magnífica e tropegamente humano.
O homem ideal é imperfeito, numa imperfeição que combina exatamente com a minha.
Ailin Aleixo
O homem ideal me faz rir mas nunca usa o riso contra mim. Tem a rara habilidade de saber ouvir e só diz o que é necessário, bom ou a dura e intransponível realidade.
Compreende a diferença entre estar presente e fazer companhia.
Não é prolixo, nem tenta impressionar. Não precisa entender de vinho, charutos ou golfe; precisa ser autêntico e admitir que não entende de vinho, charutos nem de golfe (e eventualmente confessar que gosta mesmo é de pinga). Ele não exige a todo instante meu lado risonho porque sabe, como sabe de tantas outras coisas não ditas em sentenças ou discursos, que os dias negros fazem parte de mim.
Nota as sutis alterações de humor pelo tom da minha voz e, antes de prejulgar as razões, se predispõe a fazer cafuné ou, sensato, cala-se ao meu lado olhando para a TV. E não exige explicações porque possui uma calma sabedoria que me impele em sua direção: dividir minhas angústias e anseios com este homem é tão acolhedor quanto deitar na grama sob o sol de outono. O homem ideal me dá bronca quando abuso da minha independência ou como chocolate demais e depois reclamo do peso. Ele compra sorvete light e evita discussões posteriores. Compreende que preciso da sensação indescritivelmente libertadora de sumir por algumas horas e, mesmo não concordando com ela, não me interroga como um oficial do DOI-Codi quando piso em casa, levemente para não o acordar, às 2 da manhã.
O homem ideal canta. Não precisa ser afinado, mas sussurra (seja ao telefone ou ao vivo) canções que, num dia qualquer, mencionei gostar. Pode saber dançar. E, se não souber, que mantenha a dignidade e fique sentadinho me observando. Também bebe. Meio pinguço, é daqueles que ficam charmosos de matar com um copo de uísque nas mãos. É deliciosamente sacana três doses acima do normal. Enterra os bons modos e fecha abruptamente a porta do quarto, sem tempo para que eu responda à pergunta nem sequer formulada.
Adormece aconchegado a mim, mas não suporta ficar agarrado durante toda a noite.
E também curte cozinhar. Diverte-se tanto numa loja de condimentos como diante de uma prateleira de CDs. Não me expulsa da cozinha mesmo que eu esteja atrapalhando. Não me dá fusilli na boca mas o serve no meu prato, com pouco queijo e muito molho.
O homem ideal está sempre disposto a me ouvir, mesmo que seja nos minutos desagendados à força durante o dia cheio, e não usa trabalho nem cansaço como desculpa para suas eventuais faltas; as assume e, até, se desculpa. Não se esquiva de discutir os problemas que não se solucionam com notas de 100. Não considera fraqueza dizer que me ama. Pede ajuda quando sente que o peso colocado sobre seus ombros extrapolou sua força. E chora. Não faz promessas porque sabe que nem sempre é possível cumpri-las. Vive regido por sua consciência e, impulsivo, assassina a etiqueta e comete atos passionais. Então faz besteiras, erra, engana-se. E nem por isso deixa de ser maravilhoso - apenas segue sendo magnífica e tropegamente humano.
O homem ideal é imperfeito, numa imperfeição que combina exatamente com a minha.
Ailin Aleixo
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